Archive for Janeiro, 2015

29 Jan, 2015

O que pode a esquerda portuguesa dizer para apoiar o Syriza (e não diz)

Por estes dias são múltiplas as declarações de partidos e comentadores politicos e económicos sobre a vitória do Syriza. Algumas delas, como as do BE, as do Livre ou as do PCP são declarações de apoio e têm ajudado a que o tema da renegociação/anulamento da dívida retome o debate público.

Tudo isto é muito certo. Mas é preciso algo mais do que meras palavras. Elenco de seguida três aspectos que considero fundamentais serem trazidos a este debate por parte de quem quer dar efectivo apoio ao Syriza e ao o povo grego:

1. Comecemos por exigir a suspensão da cobrança de dívida grega. Sim, é verdade! Tanto o estado português como vários (muitos?) privados nacionais (nomeadamente bancos) detêm actualmente dívida grega sobre a qual continuam a cobrar juros e prestações altíssimas. Quem apoia o Syriza e o povo grego deveria, no mínimo, exigir a suspensão imediata do recebimento destas quantias cuja necessidade de pagamento massacra diariamente o povo grego.

2. Passemos depois à Auditoria Cidadã à Dívida Pública. Sim, é possível realizá-la ainda que poucos falem nisso! Pessoas anónimas podem juntar-se e contactar os movimentos de auditoria nacionais (Iniciativa Auditoria Cidadã à Dívida Pública, Comité para a Anulação da Dívida Pública Portuguesa, Democracia e Dívida) e internacionais (Auditoria Cidadã à Dívida Grega, International Citizen Audit Network, Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo) no sentido de ajudarem na identificação das partes da dívida grega que são ilegítimas, isto é, que dívidas foram contraídas pelos anteriores governos gregos sem terem em vista o benefício da população (exemplos: financiamentos para aquisição de material militar à Alemanha, financiamentos de recapitalização de empresas públicas posteriormente privatizadas, financiamentos envolvidos em actos de corrupção). Por serem ilegítimas, estas partes da dívida não devem ser pagas pela população grega.

3. E terminemos exigindo que os governos (desde logo o português) disponibilizem financiamento à Grécia, a juros baixos ( ou nulos!) e com condicionalidades simples associadas ao seu uso em prol da reorganização dos serviços públicos e/ou do auxílio directo à população. O governo actual, o tal liderado pelo Syriza e que muitos dizem hoje apoiar, agradecerá essa almofada financeira que lhe permitirá resistir às investidas dos credores (nomeadamente ao estrangulamento financeiro que se aproxima).

Enfim, tudo isto é simples (é, pelo menos, simples de trazer para debate público). Porque será que nenhum dos partidos da esquerda parlamentar nacional mediatiza estas exigências e acções de solidariedade?

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21 Jan, 2015

Financiamentos duvidosos: desta feita à UGT

Já falei sobre isto aqui antes a propósito dos financiamentos do BES ao PCP, a outros partidos e ao presidente da república.

Total transparência nos financiamentos públicos e bancários de partidos políticos e parceiros sociais desde, pelo menos, inícios de 2011, faria maravilhas pela compreensão do que se passou em termos de (des)mobilização social neste país empobrecido pela Troika.

Hoje fizeram-me chegar mais uma notícia, desta feita de 2013 e sobre a UGT.
http://www.ionline.pt/artigos/dinheiro/estado-fiador-da-ugt-1996/pag/-1

18 Jan, 2015

Movimentos, partidos e as eleições que se avizinham

Estou às voltas a tentar dar uma volta positiva à pobreza que vejo em termos de movimentos sociais. Para clarificar o meu pensamento, o mais importante que me ocorre é que um movimento social deixa de o ser assim que começa a envolver-se na conquistar o poder. Por isso é tão importante não confundir movimento social com as infindáveis tricas partidárias que estão a ocorrer no Juntos Podemos. O Juntos Podemos nunca foi movimento social nenhum, nunca teve um objectivo de mobilização ou pressão social que se lhe conheça. É o resultado de uma decisão de intervenção política, por via sistémica, de algumas pessoas que estiveram ligadas a movimentos sociais (ou que andaram por aí a promover manifestações de protesto como se fossem movimentos sociais).

Os movimentos sociais de que falo (sensu 15M, mas já existiam muitos antes) continuam aí, pequenos, razoavelmente estruturados, fazendo campanhas contra o TTIP, pela democracia participativa ou directa, pelo direito à habitação, pela auditoria cidadã à dívida e não pagamento das dívidas ilegítimas, pela abstenção ou voto em branco consciente, contra o gás de xisto, pela transparência e contra a corrupção, contra a violência de género, contra o racismo, contra as alterações climáticas, pelo direito à adopção por casais homossexuais, testando novas formas de organização cooperativa, e abordando várias outras causas, visibilizando-as, ajudando-as a entrar no domínio público. É nestes movimentos (muitas vezes pequenos e ausentes dos orgãos de comunicação social mas que não raras vezes ressurgem em visibilidade) que reside a força da mudança e da sociedade. É aí que é efectuada a reflexão sobre os processos e as estratégias cidadãs. Aí sim, reside a critica cerrada ao sistema capitalista, ao estado na nossa democracia, à corrupção. Não é uma crítica directa, mas é uma crítica forte e cerrada.

Tudo o resto são fait-divers com que somos confrontados de tempos a tempos, por parte de elementos que pretendem usar a sua participação em movimentos sociais como instrumento político (mais frequentemente trampolim) para tentar, de uma forma ou de outra, influenciar directamente as eleições. Esses elementos prestam um péssimo serviço à movimentação da sociedade, seja quando alinham ou apoiam directamente forças partidárias já existentes reforçando as suas campanhas com o seu curriculo de intervenção social, seja quando formam novas correntes partidárias cuja espectativa de sucesso apela e assenta directamente na movimentação social pré-existente. Prestam também um mau serviço quando promovem manifestações de protesto sem autonomia política em relação à agenda das oposições. Por tudo isso devem-lhes ser pedidas responsabilidades. Os seus actos não são inócuos: eles dividem e desestruturam os movimentos sociais em que participavam, contribuindo para imobilizar a sociedade durante os períodos eleitorais, e aliviando a tão necessária pressão dos movimentos sociais sobre o poder político (todo ele, não é só do governo que se trata). Mas, talvez mais importante, será quem não concorda com estas atitudes, isolar e denunciar os seus comportamentos mas continuar a trabalhar e reflectir como antes, evitando o alastrar de danos.

O período eleitoral que se avizinha é muito mais do que uma oportunidade de mudar o governo. Ele é um momento chave para trazer às ruas e dar visibilidade ao trabalho que os movimentos sociais têm vindo a desenvolver. É um momento sensível da democracia amordaçada que vivemos, em que é possível fazer pressão, denunciar o sistema, e apelar a que a população exija efectiva mudança. É também um momento em que muitos militantes dos partidos estão envolvidos em campanhas eleitorais, deixando as reuniões de muitos movimentos mais abertas à participação e espontaneidade cidadã. Este momento eleitoral não é um fim, mas é uma oportunidade para trabalhar melhor e dar maior visibilidade ao trabalho que tem sido feito. É uma excelente altura para os movimentos sociais intervirem. E essa intervenção é muito mais importante e tem muito mais potencial de mudança do que a participação directa no jogo eleitoral viciado a que vamos assistir. Há que trabalhar para que assim seja, evitar perder tempo com o que não nos diz respeito e avançar. Vamos a isso!

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18 Jan, 2015

Podemos em Sevilha

Vale a pena ver os discursos de hoje de Podemos em Sevilha. Aos 53 min Teresa Rodriguez e à 1H:13min Pablo Iglésias.

O Palacio de Congresos y Exposiciones esteve a abarrotar e diz-se que ficou gente lá fora. Os discursos são interessantes, com fortes travos populistas e emocionais que fazem levantar o público com os principais temas da situação actual de Espanha (corrupção, desemprego, emigração, enfim…). Houve inclusive lugar a várias músicas cantadas pelos principais protagonistas políticos (tanto Tereza como Pablo cantaram e disseram poesia).

No que toca aos discursos, Teresa Rodriguez apareceu mais centrada na questão da emigração, da pobreza andaluza e da fábrica da Delphi (lembram-se disto?). Por seu turno, Pablo Iglésias surge mais centrado na política nacional, atacando o bloqueio informativo, Pedro Sanchez (actual líder do PSOE) e  Mariano Rajoy (Primeiro-ministro e líder do PP). Os exemplos usados nos discursos são claros e o discurso é forte e afirmativo cruzando elementos da história pessoal dos líderes com a cultura local.  Não se fala no entanto das questões mais complexas, como a dívida pública e a avaliação da sua legitimidade por uma Auditoria Cidadã, a questão do Euro ou da Europa. E pelo caminho, apresenta-se como negativo a redução dos níveis de empréstimos bancários em relação a 2007 (ignorando os erros da bolha imobiliária). As soluções apresentadas são bastante simplistas e nota-se bastante preocupação com a promoção da manifestação do próximo dia 31 de Janeiro em Madrid que parece ainda bastante mal fundamentada. O culto da personalidade, as soluções simplistas e os gritos de “presidente” com que é aclamado, assustam um pouco mas não será nada que não seja caracteristico de todos os partidos de Espanha (e não só).

A ver vamos onde chegam e se as questões de fundo chegarão a ser abordadas.

03 Jan, 2015

Pequena reflexão a propósito de um novo artigo de Costas Lapavitsas sobre a situação grega

Costas Lapavitsas escreveu um bom texto no The Guardian sobre a situação grega e a importância das próximas eleições. Vale a pena ler este texto que expõe com clareza a justifiça do posicionamento actual do eleitorado grego e o caminho dificil que a Grécia tem pela frente amordaçada que está pelos credores internacionais, nomeadamente os europeus. E não ter dúvidas que haverá em Portugual e na Europa um sector politico e empresarial que lutará para que a Grécia colapse se as "opções eleitorais erradas" forem adoptadas por medo que um exemplo positivo anti-austeridade e anti-pagamento da dívida por parte da Grécia contagie com novas esperanças os restantes países do sul.

A este último respeito há no entanto que ter em conta que apesar de o caso grego ter algumas semelhanças evidentes com o caso português

atente-se por exemplo neste parágrafo (in The Guardian, 29.12.2014)

Since the summer of 2014, the depression has been drawing to a close, helped by the strong performance of the tourist sector. Yet, the damage from troika policies is so severe that growth prospects are appalling. The weakness is manifest in foreign trade, which the IMF expected to act as the “engine of growth”. In 2014, Greek exports will probably contract, while imports began to rise as soon as the depression showed signs of ending. This is a deeply dysfunctional economy.

e compare-se com o que se observa na situação portuguesa(in Publico, 02.01.2015)Com o apoio dos serviços, impulsionados pelo turismo, as exportações portuguesas mantêm a balança positiva. Mas nos primeiros dez meses de 2014 o valor passou de 1260 para 694 milhões por causa da subida das importações.

Não será no entanto um caso simples de "as mesmas receitas->os mesmos resultados". De facto, por aqui, não há nem eleições antecipadas nem Syriza que as vença. E, sendo certo que a resposta ao "porquê?" desta situação tem encontrado muitas afirmações categóricas, também é verdade que têm falhado todas as tentativas de a resolver.E que alternativas de poder (pelo menos as consistentes) não se formam do dia para a noite.