Archive for Março, 2015

20 Mar, 2015

Agir vs BE: Encontre as diferenças

O Agir, partido de esquerda em formação, convidou membros da IU, Podemos e Syriza (1 cada) para uma conferência international (21 e 22 Março) em Lisboa. (link)

O BE, um partido de esquerda já estabelecido, convidou membros do Podemos e Syriza (1 cada) para uma conferência international (21 e 22 Março) em Lisboa. (link)

Comentário: O governo convenceu os portugueses de que o país saiu da crise, o principal partido da oposição concorda, os comunistas seguem na sua tentando secar o que está à volta, e os restantes esgatanham-se pelas parcas migalhas eleitorais que lhes restam aparentando continuar a achar que vale a pena fazer trabalho de sensibilização, organização e mobilização de base porque a urgência da crise que enfrentamos não se compadece com as demoras envolvidas no planeamento estratégico e metodológico a médio-longo prazo. Partiremos um dia rumo a isso? Sim, claro. Mas com mais de 4 anos de atraso em relação a Espanha e em relação à Grécia (curiosamente as musas inspiradoras dos raciocínios eleitoralistas destes dias).

15 Mar, 2015

Iñigo vs. Marisa, Podemos vs. Bloco de Esquerda: Do populismo à depressão

Um amigo enviou-me um excerto de uma conferência decorrida há uns dias onde participaram Iñigo Errejón (Podemos) e Marisa Matias (Bloco de Esquerda), entre outras pessoas.

Vale a pena analisar e comparar os dois discursos.

O de Inigo (às 5h13min) essencialmente motivacional, reenquadrando o património histórico da esquerda no presente e futuro, com muitas promessas de reconquista colectiva e propostas essencialmente generalistas. Enquanto político, Iñigo acredita numa mudança e promete encabeça-la. Diz mesmo que já o está a fazer. Considera essa mudança fundamental para mudar tudo. Fala de unir dos de baixo contra os de cima, de unir a maioria contra a minoria que a desgoverna e limita. Fala da necessidade de participação cidadã e motiva à reconquista. Vê-se que Iñigo vive ummomento épico.

O discurso de Marisa Matias (às 6h05min) é essencialmente descritivo e de um contraste absoluto com o anterior. Revê os efeitos da austeridade, apresenta à audiência uma Europa dominada pela direita, que massacra os povos do sul com austeridade. Afirma o medo das ruas, da extrema direita e da própria sombra. E no final, refere por várias vezes a mudança incorporando-a no Syriza (Grécia), Podemos (Espanha) e Sinn Fein (Irlanda). Na lista, não refere Portugal. Gabo-lhe a honestidade intelectual mas não a tipologia do discurso. Sendo realista, é desencorajador e deprimente. Iñigo aplaude visivelmente desiludido à medida que as palavras se sucedem. Nem a “Grandola Vila Morena” final é entoada com um mínimo de convicção. Um momento menos feliz? sem dúvida.

Não morro de amores por discursos motivacionais, mesmo que me transmitam consideravel entusiasmo e goste de ver a esquerda ganhar e acreditar que pode vencer. O problema com este tipo de discursos é fazerem-me sempre sentir que estou a ser levado a comprar algo que propositadamente não me revelam o conteúdo. Não convivo bem com essa sensação, faz-me sempre lembrar a extrema-direita mesmo que repitam “democracia” e “cidadania” a cada passo. Há experiências em Espanha que partindo de um discurso forte, o pontuam com ideias políticas e activistas mais sólidas, dando mostras efectivas de abertura à cidadania e de capacidade de desobediência ao sistema. Essas parecem-me bem mais prometedoras que o Podemos (exemplo).

Mas que dizer do discurso de Marisa Matias, do seu derrotismo e da sua falta de crer e de emoção? Reconhecendo-lhe a honestidade intelectual e o realismo, não entendo a necessidade que sente necessidade de afirmar a derrota do seu partido (e de muitos da esquerda Europeia) a cada palavra, quase pedindo desculpa por existirem cheios de boas intenções mas não conseguirem chegar lá. Todos sabemos a culpa que a esquerda partidária portuguesa tem na incapacidade de dar a volta ao texto da austeridade. Mas felizmente, há muita gente em Portugal e em toda a Europa (e não só na Espanha, na Grécia e na Irlanda) a trabalhar com alegria para construir uma alternativa! Muita gente fora dos partidos. Marisa devia olhar para isso e tentar sorrir.

No final disto tudo, há que procurar extrair conclusões construtivas da comparação. Ocorre-me que teremos que caminhar um pouco mais para se encontrar o balanço certo entre os dois tipos de discursos. E quem sabe, talvez até venha a revelar-se bom Portugal partir atrasado e beneficiar da experiência prévia de Grécia e Espanha antes de construir a sua própria alternativa política. Que ninguém duvide que Podemos. Temos é de procurar e encontrar a fórmula. Ficando deprimidos e dependentes de partidos que gemem e suspiram antes de se afundarem é que não!