Movimentos, partidos e as eleições que se avizinham

Estou às voltas a tentar dar uma volta positiva à pobreza que vejo em termos de movimentos sociais. Para clarificar o meu pensamento, o mais importante que me ocorre é que um movimento social deixa de o ser assim que começa a envolver-se na conquistar o poder. Por isso é tão importante não confundir movimento social com as infindáveis tricas partidárias que estão a ocorrer no Juntos Podemos. O Juntos Podemos nunca foi movimento social nenhum, nunca teve um objectivo de mobilização ou pressão social que se lhe conheça. É o resultado de uma decisão de intervenção política, por via sistémica, de algumas pessoas que estiveram ligadas a movimentos sociais (ou que andaram por aí a promover manifestações de protesto como se fossem movimentos sociais).

Os movimentos sociais de que falo (sensu 15M, mas já existiam muitos antes) continuam aí, pequenos, razoavelmente estruturados, fazendo campanhas contra o TTIP, pela democracia participativa ou directa, pelo direito à habitação, pela auditoria cidadã à dívida e não pagamento das dívidas ilegítimas, pela abstenção ou voto em branco consciente, contra o gás de xisto, pela transparência e contra a corrupção, contra a violência de género, contra o racismo, contra as alterações climáticas, pelo direito à adopção por casais homossexuais, testando novas formas de organização cooperativa, e abordando várias outras causas, visibilizando-as, ajudando-as a entrar no domínio público. É nestes movimentos (muitas vezes pequenos e ausentes dos orgãos de comunicação social mas que não raras vezes ressurgem em visibilidade) que reside a força da mudança e da sociedade. É aí que é efectuada a reflexão sobre os processos e as estratégias cidadãs. Aí sim, reside a critica cerrada ao sistema capitalista, ao estado na nossa democracia, à corrupção. Não é uma crítica directa, mas é uma crítica forte e cerrada.

Tudo o resto são fait-divers com que somos confrontados de tempos a tempos, por parte de elementos que pretendem usar a sua participação em movimentos sociais como instrumento político (mais frequentemente trampolim) para tentar, de uma forma ou de outra, influenciar directamente as eleições. Esses elementos prestam um péssimo serviço à movimentação da sociedade, seja quando alinham ou apoiam directamente forças partidárias já existentes reforçando as suas campanhas com o seu curriculo de intervenção social, seja quando formam novas correntes partidárias cuja espectativa de sucesso apela e assenta directamente na movimentação social pré-existente. Prestam também um mau serviço quando promovem manifestações de protesto sem autonomia política em relação à agenda das oposições. Por tudo isso devem-lhes ser pedidas responsabilidades. Os seus actos não são inócuos: eles dividem e desestruturam os movimentos sociais em que participavam, contribuindo para imobilizar a sociedade durante os períodos eleitorais, e aliviando a tão necessária pressão dos movimentos sociais sobre o poder político (todo ele, não é só do governo que se trata). Mas, talvez mais importante, será quem não concorda com estas atitudes, isolar e denunciar os seus comportamentos mas continuar a trabalhar e reflectir como antes, evitando o alastrar de danos.

O período eleitoral que se avizinha é muito mais do que uma oportunidade de mudar o governo. Ele é um momento chave para trazer às ruas e dar visibilidade ao trabalho que os movimentos sociais têm vindo a desenvolver. É um momento sensível da democracia amordaçada que vivemos, em que é possível fazer pressão, denunciar o sistema, e apelar a que a população exija efectiva mudança. É também um momento em que muitos militantes dos partidos estão envolvidos em campanhas eleitorais, deixando as reuniões de muitos movimentos mais abertas à participação e espontaneidade cidadã. Este momento eleitoral não é um fim, mas é uma oportunidade para trabalhar melhor e dar maior visibilidade ao trabalho que tem sido feito. É uma excelente altura para os movimentos sociais intervirem. E essa intervenção é muito mais importante e tem muito mais potencial de mudança do que a participação directa no jogo eleitoral viciado a que vamos assistir. Há que trabalhar para que assim seja, evitar perder tempo com o que não nos diz respeito e avançar. Vamos a isso!

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