Archive for Novembro, 2014

30 Nov, 2014

Documentário sobre suicídios em Espanha

Espantoso documentário sobre o aumento dos suícidios em Espanha. Realizado em sistema de crowsourcing, o documentário mostra o importante papel desempenhado pela PAH e outras associações de base e como a luta e enfrentamento colectivo dos problemas oferecem uma solução.

Vale a pena ver e divulgar.

http://www.losquesequedan.es/

30 Nov, 2014

Podemos: acelerada transferência de base social?

Carlos Taibo pergunta-se, e com razão, que tipo de activismo faz Podemos? qual a sua contribuição efectiva para os movimentos sociais? que causas Podemos defende nas ruas?

A resposta é: nenhuma. Podemos é essencialmente uma esperança de poder e está muito longe de ter relevância como movimento de base. Podemos nasceu e cresceu sustentando-se na irreverência da movimentação social, um pouco como o Bloco de Esquerda à cerca de 15 anos em Portugal. Este crescimento é espantoso e salutar, muito salutar, tendo permitido a entrada de alguns novos debates na opinião pública mainstream. Mas, tal como o Bloco, a condição alcançada de partido importante, rapidamente ameaça erodir a sua ligação com a base que o fez crescer, tornando-o num mero partido agregador de descontentamento, e sujeitando-o às práticas e marés eleitorais do centrão político.
Talvez o Podemos consiga um resultado histórico. Histórico para si e para os seus militantes. Talvez até histórico para a Espanha e uma surpresa na Europa. Talvez o Podemos consiga trazer evolução política nalgumas áreas importantes, pelo menos travando um pouco o neoliberalismo actualmente vingente. Afinal de contas, implementem-se apenas algumas das medidas esta semana propostas no seu draft de programa económico e já seria bom. Na realidade, a simples discussão do que ali se apresenta já é boa.Mas, tal como o anunciam os recentes jogos de poder internos e o recente afastamento dos princípios transformadores inicialmente votados, parece-me que pouco mais do que isto será de esperar em termos de contributo para a transformação nos valores éticos, programáticos e democráticos da sociedade. Podemos transforma-se aos poucos em mais uma alternativa, uma alternativa orientada à esquerda e sagazmente alicerçada num populsimo que cativa votos e a comunicação social mainstream (e por isso com aspirações eleitorais imediatas) mas que se torna progressivamente mais uma alternativa sistémica (a impossibilidade de haver partidos anti-sistema a ganhar eleições sistémicas é algo que não cabe aqui discutir).

O risco sério é que Podemos evolua assente apenas no seu próprio populismo e que este acabe por subverter (em vez de suportar) as causas da sua base. Não parece haver (ainda?) indicações de que tal vá acontecer mas existem claros riscos na transferência rápida e unívoca da base de apoio dos movimentos sociais para o grosso da população insatisfeita. Particularmente se esta transferência estiver assente num populismo de uma só figura.

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29 Nov, 2014

Documento económico Podemos

Vale a pena ler em http://podemos.info/

Opinião inicial? credo….

Vale (muito?) pelas 64 utilizações pedagógicas da palavra ‘deuda’. O resto que diz sobre ‘deuda’?, ui! ui!

Muito a custo lá se utiliza o verbo "auditar" 2 vezes, desligando-o da cidadania e em repetição de frases (!). Já para não falar na subserviência declarada à estabilidade do sistema, leia-se ‘do mesmo sistema que se diz combater’.

enfim, terá talvez outros méritos…pragmatismo, possibilidade de ganhar outros eleitores e isso…

mas divergindo seriamente das suas ideias de base poderá alguma vez ‘alguma coisa’? Não me parece.

Porque que este tipo de iniciativas sempre se afastam da essência que lhes garantiu o sucesso inicial é algo que sempre me espanta…sei a razão mas sempre me espanta…

Nota de rodapé: "not surprisingly, all this is cheered in elpais

16 Nov, 2014

A censura no ICS-UL: considerações gerais sobre a posição do Conselho Científico

E, pior!, quem ler o comunicado do conselho científico, detectará ainda a afirmação da necessidade de revisão dos critérios de publicação (para que nunca mais aconteça!) e uma inqualificável entrega de bandeja aos tribunais do antigo director da revista. tudo isto por entre louvores a um director que censurou preventivamente uma publicação sem dar cavaco a ninguém, enlameando o nome da instituição. A ideia de que uma resolução destas possa ter sido votada por unanimidade apenas aumenta a preocupação.  A nódoa levará anos a sair e não há edições especiais sobre “crise e protesto” (desta feita, claro, em peer-review para evitar surpresas!) ou foruns de reflexão que o possam evitar. É típico dos regimes decadentes promoverem eventos e conferências de abertura.

Gostava de ter visto as universidades emocionarem-se com isto. Era caso para isso porque a situação do ICS está longe de ser apenas um caso das ciências sociais. Mas, não só não o fizeram como, pior!, o silenciaram. O silêncio dos pares perante o grotesco desfecho de uma situação com enormes contornos – desde logo científicos mas também éticos, políticos, económicos e sociais! – carimba de vez o seu comprometimento com o actual regime. Este carimbar devia ser mote de profunda reflexão por parte de todos aqueles que ainda esperam que sejam elas a alumiar o fundo do túnel.

Alguém me dizia noutro dia que ao contrário do que muita gente pensa as universidades não são focos de mudança mas sim focos de conservadorismo; e que há casos de corpos estudantis a lutar pelos direitos políticos e sociais pelo mundo fora mas que a larga maioria dos investigadores e professores não se compromete (e até se opõe) até que o momento final dos regimes se anuncie. Terá sido assim no Portugal antes do 25 de Abril. E é ainda assim no Portugal pra-frentex da segunda década de 2000. Este caso apenas o demonstra. Faltam no entanto (e prevejo que por mais alguns anos) os estudantes…
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02 Nov, 2014

A caminho do fim da emigração: algumas implicações políticas

Primeiro-ministro luxemburguês aconselha os Portugueses a não procurarem emprego no seu país. Passos Coelho recusa responsabilidades na emigração massiva (mais de 30% dos desempregados no Luxemburgo são portugueses) refugiando-se na falta de significância dos números, mas também ele desaconselha agora a emigração para aquele país. Os sinais de xenofobia avolumam-se, com castigos discriminatórios a crianças portuguesas nas escolas e outros detalhes.

Vai assim escasseando a solução que muitos jovens e adultos encontraram para fugir à crise, ao mesmo tempo que se tornam mais escassas as suas opções de sobrevivência. Por enquanto, a situação parece afectar ainda essencialmente os mais pobres e desqualificados, não se tendo feito sentir significativamente nos restantes. Mas um dia também a estes últimos chegará porque também eles competem por mercado de trabalho cada vez mais escasso, seja no Luxemburgo, seja noutros países. A todos restar-lhes-á uma opção – migrar para outros lugares, onde não tenham família e sem condições de apoio ou acompanhamento, sofrendo os custos da falta de solidariedade – mas também essa escapatória ameaça fechar-se  rapidamente com o agudizar progressivo dos efeitos da crise bancária ao resto da Europa. Em França cresce a Frente Nacional e o seu discurso recentra-se na questão dos emigrantes. O Reino Unido ameaça já com limitações aos estrangeiros “europeus”.

Em paralelo a estes desenvolvimentos vai terminando o el Dorado de emigração jovem que permitiu a Passos Coelho e aos governos do Sul da Europa manterem-se no poder ao mesmo tempo que impunham austeridade aos seus povos e salvavam as cúpulas do sistema financeiro e empresarial. A almofada política chamada “emigração” foi utilizada extensivamente na resolução dos debates políticos quotidianos, chegando ao ponto de ser estimulada activamente a emigração de portugueses ditos “acomodados” (outro exemplo aqui). Esta almofada tem permitido manter tudo como antes, reduzindo as tensões sociais geradas pela impressionante falta de futuro, nomeadamente daqueles jovens que por terem mais qualificações do que os seus pais aspiravam (correctamente) a uma vida melhor [E não fora a desgraça política e conluios bancários talvez a tivessem tido!]. Tudo isto aponta num sentido: A emigração facilitada, tornada possível pelos Acordos de Schengen, tem sido nestes anos a grande amiga de Passos e Portas e do sistema financeiro. Foi ela que salvou políticamente governo e bancos, permitindo-lhes destruir o país sem que isso causasse revoltas e desaires políticos e sociais. Espanhóis e gregos, quem sabe se por terem menos qualificações de inglês ou serem mais, tiveram mais dificuldade em emigrar e revoltaram-se mais procurando activamente algumas alterações.

Ao longo destes últimos três anos de activismo político a questão da emigração têm-me tocado. Sinto que ela e o individualismo propagado pelo sistema educativo, social e político durante os últimos 20 anos, estão entre os principais responsáveis pela falta de força e dinamismo das mudanças que sinto necessárias. Por esse motivo, várias vezes ironizei que o caminho mais rápido (mas também o mais dramático…) para a mudança passaria pelo final dos Acordos de Schengen, algo que considero provável que aconteça se a Europa e os países não inverterem o actual rumo económico e retrocesso social. E, numa perspectiva mais construtiva, várias vezes sugeri que uma boa forma de pressionar o governo de Passos e Portas passaria pela exigência da realização imediata de um censo populacional que permitisse de algum modo, responsabilizá-lo em tempo real pelas consequências das suas políticas. De facto, é dificil provar alterações significativas de tendências demográficas em poucos anos. Passos Coelho sabe-o, reconhece-o publicamente e vive disso. O último censo populacional, o melhor instrumento para avaliar as alterações demográficas, sociais e económicas da população de um país, realizou-se em 2011 e por isso só voltará a repetir-se em 2021. O governo de Passos estará portanto a salvo das responsabilidades quando ele ocorrer, ou estas surgirão diluidas pelos governos e políticas de 10 anos, afundando ainda mais a confiança no sistema político. Infelizmente, a sorte de Passos é o azar do seu povo: nessa altura já será demasiado tarde para analisar e intervir no controlo dos efeitos das políticas mais devastadoras.

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01 Nov, 2014

A censura no ICS-UL: um contexto mais alargado

Veio esta semana a público que o Director do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL) mandou retirar uma publicação científica de circulação (o último número da revista “Análise Social” publicada por esta instituição) por esta ter fotografias de graffitis atentatórios do governo e de um gestor de empresas (Alexandre Soares dos Santos) cuja fundação Francisco Manuel dos Santos financia projectos do ICS-UL. O artigo pode ser lido aqui.

A justificação atabalhoada entretanto dada pelo Director do ICS-UL, que remetia para questões de formalidade científica, já foi refutada e criticada noutros locais (por exemplo, neste excelente artigo de José Neves no jornal Público) onde fica amplamente demonstrada a existência de censura. Parece também claro, a avaliar pelo referido artigo, que o director do ICS não tem condições para se manter no cargo depois de ter usado, numa universidade, de semelhante atitude fascista e anti-democrática mesmo que esta tenha sido (admitamos por um momento) imponderada e insensata.

O que me parece estar a faltar um pouco a esta discussão é o enquadramento geral da mesma no contexto politico-social que vivemos e é para isso que aqui chamo a atenção dos investigadores do ICS-UL e do público em geral. De facto, este caso demonstra de uma só penada vários aspectos do sucessivo agravar da situação do país, permitindo além da visão sectorial (a política interna do ICSUL, a liberdade de investigação e publicação científica, etc) uma visão um pouco mais alargada e contestiva que em muito poderia reforçar a sua resolução.

De facto, fica por este caso demonstrado:

a) as fragilidades a que está exposto o sector universitário público quando é alvo de cortes e as consequências da sua substituição pelo sector privado, sentidas por exemplo (mas não só) através de ingerências na investigação praticada. Estas fragilidades e as suas consequências deveriam ser o suficiente para alertar todo o sector universitário e toda a sociedade em geral (e não apenas o corpo de investigadores das ciências sociais e humanas) para a necessidade de proteger o sector público de educação e investigação universitária.

b) o assustador que é o exercício de censura a coberto da sociedade democrática. A nossa democracia está doente e a luta para a salvar deveria ser uma prioridade diária de todos os investigadores e docentes universitários, independentemente da área de actividade, recusando abertamente conluios com as políticas governamentais (por oposição à subserviência a troco de financiamento que a larguíssima maioria das instituições demonstrou nos últimos 3 anos)

c) um enquadramento anti-democrático de políticas governativas e empresariais que vai muito para além da questão da censura de uma artigo científico estendendo-se à própria liberdade de manifestação política. De facto, em 2013 perante a apatia geral dos investigadores sociais, dos movimentos sociais directamente afectados e das forças partidárias ditas de esquerda, passou no parlamento uma lei de clara criminalização de todos os graffitis, pinchagens e afixação de autocolantes e posters de carácter não partidario em património público e privado, sobre a qual pouco ou nada se falou (aqui uma notícia do jornal Público). Esta lei, com intenções claras de criminalizar os graffitis que estavam a ser efectuados contra o governo durante a vigência da troika (por exemplo, envergonhando-o em nos seus actos de subserviência europeia) e a divulgação de cartazes de manifestações, nomeadamente as com organização mais apartidárias/anti-partidárias (saiba-se por exemplo que vários milhares de cartazes foram afixados em Lisboa nas semanas que antecederam manifestações como o 15 de Outubro de 2011 ou “que se lixe a troika: o povo é quem mais ordena” e que estes foram fundamentais à participação que se obteve), entrou no parlamento no verão de 2013 (logo após a manifestaçao de 2 de Março) sendo rapidamente debatida e aprovada. Nas transcrições dos debates parlamentares fica clara a tentativa de limitação e criminalização das actividades políticas de oposição a este governo, algo que devia ser o suficiente para fazer sobressaltar toda a sociedade portuguesa (e não apenas os investigadores do ICS) (ver página 31 a 39 do Diário da Assembleia da República DAR I série Nº.108/XII/2 2013.07.04) sendo produzidas frase como “É verdade, Srs. Deputados, que esta proposta pode colidir com muitas das ações que se veem na margem sul e noutros lados, onde há vários murais com o patrocínio de símbolos partidários. Mas esse problema não se vai colocar, porque o que esses partidos antes faziam vão continuar a poder fazer, só com uma limitação: primeiro, têm de pedir licenciamento prévio, primeiro têm de pedir uma autorização.” [video aqui][Carlos Peixoto PSD] ou “A partir de agora, fazer um graffiti ou afixar um cartaz numa parede tem de passar, e bem, por um pedido prévio de licença à câmara, com apresentação de um projeto do que pretende desenhar, bem como de uma autorização, por escrito, do proprietário do edifício”[video aqui] [Teresa Anjinho, CDS-PP]. Referia-se a este propósito que PCP/PEV e BE tiveram intervenções relativamente fracas mas votaram contra. E que o PS sintomaticamente se absteve.

Por tudo isto, este caso parece-me merecedor de ampla denúncia e divulgação, muito para lá do ambiente interno do ICS-UL. Nesse sentido, seria por exemplo interessante procurar tomadas de posições públicas de outros responsáveis, universitários e não só, no sentido de definir desde já quem está do lado da Democracia e quem aceita negociá-la a troco de interesses e estabilidade política ou financeira.

As redes sociais, podem ser um meio privilegiado para fazer transbordar esta discussão. Alguns exemplos já encontrados na net, seguem-se.

*update (01/11/2014): chegou entretanto ao meu conhecimento que uma pequena manifestação indignada teve lugar em frente à Assembleia da República no dia da aprovação. Vale a pena recordar e enaltecer quem teve a coragem de trazer este assunto à rua e nela participou (manifesto e fotografias aqui).

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