Podemos: acelerada transferência de base social?

Carlos Taibo pergunta-se, e com razão, que tipo de activismo faz Podemos? qual a sua contribuição efectiva para os movimentos sociais? que causas Podemos defende nas ruas?

A resposta é: nenhuma. Podemos é essencialmente uma esperança de poder e está muito longe de ter relevância como movimento de base. Podemos nasceu e cresceu sustentando-se na irreverência da movimentação social, um pouco como o Bloco de Esquerda à cerca de 15 anos em Portugal. Este crescimento é espantoso e salutar, muito salutar, tendo permitido a entrada de alguns novos debates na opinião pública mainstream. Mas, tal como o Bloco, a condição alcançada de partido importante, rapidamente ameaça erodir a sua ligação com a base que o fez crescer, tornando-o num mero partido agregador de descontentamento, e sujeitando-o às práticas e marés eleitorais do centrão político.
Talvez o Podemos consiga um resultado histórico. Histórico para si e para os seus militantes. Talvez até histórico para a Espanha e uma surpresa na Europa. Talvez o Podemos consiga trazer evolução política nalgumas áreas importantes, pelo menos travando um pouco o neoliberalismo actualmente vingente. Afinal de contas, implementem-se apenas algumas das medidas esta semana propostas no seu draft de programa económico e já seria bom. Na realidade, a simples discussão do que ali se apresenta já é boa.Mas, tal como o anunciam os recentes jogos de poder internos e o recente afastamento dos princípios transformadores inicialmente votados, parece-me que pouco mais do que isto será de esperar em termos de contributo para a transformação nos valores éticos, programáticos e democráticos da sociedade. Podemos transforma-se aos poucos em mais uma alternativa, uma alternativa orientada à esquerda e sagazmente alicerçada num populsimo que cativa votos e a comunicação social mainstream (e por isso com aspirações eleitorais imediatas) mas que se torna progressivamente mais uma alternativa sistémica (a impossibilidade de haver partidos anti-sistema a ganhar eleições sistémicas é algo que não cabe aqui discutir).

O risco sério é que Podemos evolua assente apenas no seu próprio populismo e que este acabe por subverter (em vez de suportar) as causas da sua base. Não parece haver (ainda?) indicações de que tal vá acontecer mas existem claros riscos na transferência rápida e unívoca da base de apoio dos movimentos sociais para o grosso da população insatisfeita. Particularmente se esta transferência estiver assente num populismo de uma só figura.

podemos
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