A caminho do fim da emigração: algumas implicações políticas

Primeiro-ministro luxemburguês aconselha os Portugueses a não procurarem emprego no seu país. Passos Coelho recusa responsabilidades na emigração massiva (mais de 30% dos desempregados no Luxemburgo são portugueses) refugiando-se na falta de significância dos números, mas também ele desaconselha agora a emigração para aquele país. Os sinais de xenofobia avolumam-se, com castigos discriminatórios a crianças portuguesas nas escolas e outros detalhes.

Vai assim escasseando a solução que muitos jovens e adultos encontraram para fugir à crise, ao mesmo tempo que se tornam mais escassas as suas opções de sobrevivência. Por enquanto, a situação parece afectar ainda essencialmente os mais pobres e desqualificados, não se tendo feito sentir significativamente nos restantes. Mas um dia também a estes últimos chegará porque também eles competem por mercado de trabalho cada vez mais escasso, seja no Luxemburgo, seja noutros países. A todos restar-lhes-á uma opção – migrar para outros lugares, onde não tenham família e sem condições de apoio ou acompanhamento, sofrendo os custos da falta de solidariedade – mas também essa escapatória ameaça fechar-se  rapidamente com o agudizar progressivo dos efeitos da crise bancária ao resto da Europa. Em França cresce a Frente Nacional e o seu discurso recentra-se na questão dos emigrantes. O Reino Unido ameaça já com limitações aos estrangeiros “europeus”.

Em paralelo a estes desenvolvimentos vai terminando o el Dorado de emigração jovem que permitiu a Passos Coelho e aos governos do Sul da Europa manterem-se no poder ao mesmo tempo que impunham austeridade aos seus povos e salvavam as cúpulas do sistema financeiro e empresarial. A almofada política chamada “emigração” foi utilizada extensivamente na resolução dos debates políticos quotidianos, chegando ao ponto de ser estimulada activamente a emigração de portugueses ditos “acomodados” (outro exemplo aqui). Esta almofada tem permitido manter tudo como antes, reduzindo as tensões sociais geradas pela impressionante falta de futuro, nomeadamente daqueles jovens que por terem mais qualificações do que os seus pais aspiravam (correctamente) a uma vida melhor [E não fora a desgraça política e conluios bancários talvez a tivessem tido!]. Tudo isto aponta num sentido: A emigração facilitada, tornada possível pelos Acordos de Schengen, tem sido nestes anos a grande amiga de Passos e Portas e do sistema financeiro. Foi ela que salvou políticamente governo e bancos, permitindo-lhes destruir o país sem que isso causasse revoltas e desaires políticos e sociais. Espanhóis e gregos, quem sabe se por terem menos qualificações de inglês ou serem mais, tiveram mais dificuldade em emigrar e revoltaram-se mais procurando activamente algumas alterações.

Ao longo destes últimos três anos de activismo político a questão da emigração têm-me tocado. Sinto que ela e o individualismo propagado pelo sistema educativo, social e político durante os últimos 20 anos, estão entre os principais responsáveis pela falta de força e dinamismo das mudanças que sinto necessárias. Por esse motivo, várias vezes ironizei que o caminho mais rápido (mas também o mais dramático…) para a mudança passaria pelo final dos Acordos de Schengen, algo que considero provável que aconteça se a Europa e os países não inverterem o actual rumo económico e retrocesso social. E, numa perspectiva mais construtiva, várias vezes sugeri que uma boa forma de pressionar o governo de Passos e Portas passaria pela exigência da realização imediata de um censo populacional que permitisse de algum modo, responsabilizá-lo em tempo real pelas consequências das suas políticas. De facto, é dificil provar alterações significativas de tendências demográficas em poucos anos. Passos Coelho sabe-o, reconhece-o publicamente e vive disso. O último censo populacional, o melhor instrumento para avaliar as alterações demográficas, sociais e económicas da população de um país, realizou-se em 2011 e por isso só voltará a repetir-se em 2021. O governo de Passos estará portanto a salvo das responsabilidades quando ele ocorrer, ou estas surgirão diluidas pelos governos e políticas de 10 anos, afundando ainda mais a confiança no sistema político. Infelizmente, a sorte de Passos é o azar do seu povo: nessa altura já será demasiado tarde para analisar e intervir no controlo dos efeitos das políticas mais devastadoras.

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