Concessão do Oceanário: Um ataque simbólico

A propósito da concessão a privados do Oceanário de Lisboa ocorre-me que mais do que o dinheiro da concessão é o seu simbolismo que o Governo pretende atacar e destruir.

A Expo98 e o Oceanário (tal como o Pavilhão Atlântico) estão associados a uma altura em que os portugueses, tradicionalmente cépticos e pessimistas, descobriram que eram capazes de produzir (e nos prazos estabelecidos) algo que acabariam por consideraram unanimemente “muito belo” e um “bom uso de dinheiros públicos”. Ao assinalar a derrota desse cepticismo, a Expo98 acabou por gerar um sentimento de afirmação e orgulho pessoal e colectivo que colocou Portugal ao nível da modernidade Europeia. Algo que ansiava desde 1974.

Por isso, ao vender e privatizar a zona da Expo, o Pavilhão Atlântico e o Oceanário sob o signo da austeridade e do "vivemos acima das nossas possibilidades" o Governo não está apenas a angariar fundos. Nem os pequenos fundos que serão obtidos são significativos no contexto geral do endividamento do país. Está sim a afirmar uma posição ideológica (que o Estado não deve manter nada de belo numa zona rica da cidade) e a atacar directamente a autoestima individual e colectiva adquirida na altura colocando em causa a capacidade de cada um se afirmar como elemento de um povo capaz e moderno (1). Ao fazê-lo o Governo procura subjugar directamente a própria capacidade de afirmação da população, repondo e recalcando no inconsciente colectivo uma antiga memória histórica desta feita sob novos contornos: "afinal, nada daquilo foi verdadeiro, tudo aquilo foi excessivo, e toda a confiança que se sentiu não passou de uma ilusão". Este discurso miserabilista e humilhante, amplificado a toda a hora por uma comunicação social sedenta de tristezas, encontra substrato fértil nas fragilidades económicas despoletadas pela crise e na insegurança provocada por um processo de afirmação muito rapido e recente e que teve como ponto inicial uma longa ditadura caracterizada por constantes discursos de humildade, resignação e mesquinhez.

Este acto do governo, esta destruição do horizonte simbólico da população portuguesa é propositada: ela destina-se a justificar as opções que o Governo tomou, nomeadamente a sua contínua subserviência a uma série de agentes nacionais e estrangeiros, entre os quais, grandes empresários, bancos e alta finança nacional e internacional, Merkel e demais, Comissão Europeia e outras instituições supranacionais (BCE, FMI), Estados Unidos, ou até mesmo em relação a cidadãos duvidosos vindos da China, Russia e de outros paises que não respeitam os direitos humanos (por via dos vistos gold). Que a Troika, sendo estrangeira, apoie este discurso é fácil de entender. Serve os seus interesses (paga a dívida, mantém os bancos e o sistema financeiro a funcionar tal como antes) e ao mesmo tempo assegura que as suas medidas não são postas em causa por contestação social. Há muito tempo que no resto do mundo não se padece de dramas morais a respeito de questões financeiras. A moral é matéria importante para a gestão política dos acontecimentos mas o que efectivamente importa está desde há muito a salvo de quaisquer dramas morais.

Por tudo isto, por todo o simbolismo envolvido nesta concessão, os cidadãos preocupados podiam talvez procurar juntar-se e parar activamente esta concessão, usando-a para delimitar um efectivo "Basta" à destruição contínua dos seus direitos e dignidade. Neste capitulo, a questão reúne alguns pontos fortes. O conceito de "bom, válido, justo e belo" está intimamente ligado ao conceito de "Oceanário" no imaginário mental de cada português sendo por isso um ponto de partida relativamente incontroverso e transversal para a mobilização da sociedade. A questão assegura também uma directa ligação entre o activismo político sensu strictu e o activismo ecológico (hoje mais desmobilizado mas ainda bastante bem organizado). A enorme quantidade de imagens existentes na net e em registos fotográficos pessoais dcorrentes das visitas do público ao local bem como a quantidade de informação existente em sites de turismo internacionais são também pontos de partida favoráveis para uma campanha mediática (ver exemplos retirados ontem do facebook do colectivo Democracia e Dívida). Finalmente, o imediato apoio partidário que se gerou em torno desta questão (a que não será alheio uma tentativa de aproveitamento da mesma para fins eleitorais) permite antever uma substancial capacidade de mobilização mediatica, especialmente em período eleitoral.

Resta saber se há unhas na sociedade para tocar esta guitarra.

(1) a este propósito recorde-se que logo depois da Expo98 a população aderiu sem preconceitos a apostas como a valorização da investigação científica e tecnológica, a melhoria ambiental, o empreendedorismo em nome individual, etc)

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One Comment to “Concessão do Oceanário: Um ataque simbólico”

  1. Nem há palavras.

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