Pensamentos sobre a ameaça fascista, reacções desejáveis e indesejáveis

Marine Le Pen falou à Antena 1 (minuto 22):

http://rsspod.rtp.pt/podcasts/at1/1404/2979824_156057-1404201320.mp3

A questão parece-me relativamente simples. Perante a) a incapacidade da esquerda partidária de ir buscar votos à abstenção e a sua contínua insistência em afirmar-se como via única (instrumentalizando, abafando ou reorientando todas as iniciativas apartidárias que vão surgindo à sua margem) e b) a complacência dos activistas apartidários perante as instrumentalizações de que são alvo, a sua fé cega em pseudo-convergências de esquerda e pseudo-unidades na luta sempre prometidas mas nunca realizadas e falta de inovação e radicalismo actualmente existente nas suas propostas e c) a contínua substimação que PS e PSD fazem relação às causas e consequências da elevada abstenção e do discurso de extrema-direita europeu (veja-se as declarações imprudentes de José Cutileiro),… resta-nos esperar que a extrema-direita portuguesa não se ilumine e forneça aos abstencionistas o que eles desejam: uma linguagem forte e antisistémica, promessas de efectiva renovação que lhes dê o mínimo de esperança, de preferência servidas de bandeja e sem trabalho por um qualquer líder demogógico e bem-falante. Sem nunca olharem às consequências futuras desses seus desejos, muito menos saberem ver para lá das promessas que lhes são feitas.

Marine Le Pen sabe tudo isso muito bem. E sabe também que é uma questão de tempo até que esse lider surja (ajudará por certo a criá-lo porque o internacionalismo não é só à esquerda). E sabe bem que assim que ele surgir a esquerda se amedrontará e lhe declará uma guerra louca, dividindo-se entre moderados e radicais e ajudando a empolar mediaticamente o próprio discurso que combate. E sabe bem que o Bloco Central vai tentar agradar a gregos e a troianos e capitalizar com o assunto, apresentando-se como árbitro de pretensos conflitos ideológicos. Pelo menos até à altura em que os votos lhe comecem efectivamente a faltar e a situação a assustar. Marine Le Pen sabe-o porque não só é essa a sua estratégia em França (limpar o discurso, deslegitimando as acusações de fascismo aos olhos da população) como é também o que tem observado na Grécia.

E a esquerda partidária também devia sabê-lo. Na ausência de soluções anti-sistémicas à esquerda, na ausência de um discurso de esquerda democrático mas verdadeiramente anti-corrupção e verdadeiramente disciplinador de políticos e banqueiros, na ausência de populações informadas e mobilizadas em torno das causas e soluções alternativas existentes para os seus problemas, na persistência ad eternum da dança das cadeiras partidárias e pseudo-convergências eleitoralistas, a esquerda partidária também devia saber o que vai acontecer. E devia evitá-lo. Mas não lhe está no código genético alterar o rumo. Nunca estará. É composta por incorrigíveis perdedores.

Cabe assim a responsabilidade à população mobilizada, e mais especificamente aos activistas apartidários e anti-partidários de esquerda, de lutarem contra esta inevitabilidade. Era bom que assim não fosse (e que os partidos de esquerda ajudassem mais) mas assim é. E para que essa luta seja efectiva, têm de gerar movimentos efectivamente alternativos, radicalizar o discurso, testar novas formas de aproximação à população; têm de atacar e criticar abertamente a corrupção e os desmandos de políticos e banqueiros, tanto à esquerda como à direita; têm de exigir auditorias efectivamente cidadãs à dívida, valorizando-as e blindando-as a aproveitamentos antes que outros se aproveitem delas; têm de se preocupar mais em informar, autonomizar e mobilizar a população em relação às causas dos problemas afastando-se do mero impulso facebookiano e dos desejos de grandeza envolvidos numa mudança de governo já amanhã; têm de se manifestar sim, mas têm de mostrar energia e credibilidade ao fazê-lo, indicando um caminho radical, claro e coerente nesse protesto. Só assim o grosso da população poderá ver e prosseguir um caminho alternativo ao que é proposto pela extrema-direita e afastar-se dos becos e poços populistas e fascistas que lhe serão apontados à medida que o sistema actual degenera.

Não é possível antever como será o sistema democrático no final de uma mobilização da sociedade civil que nunca antes vimos ou vivemos. Da mesma forma não é possível antever se ficaremos ou não na europa (a questão parece-me francamente lateral). Mas podemos ter a certeza que se a mobilização popular ocorrer à esquerda e informada, e os seus contornos forem democráticos, mesmo que o resultado final não envolva de partidos a liberdade e a democracia serão salvas e mantidas. Os partidos de esquerda não deviam temer isto.

 

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