Sobre natas

Não gosto de natas, nunca gostei. E por isso estou solidário com elas – preocupa-me que sejam retiradas do menu – mas também estou profundamente irritado com elas, com muitos dos seus comentários, com uma parte substancial da forma como se batem, e com a forma como, por tanto tempo, sorriram e agradaram a quem as bajula, esquecendo-se por completo do resto bolo.

Não gosto de natas porque não gosto dos que se sentem "a nata" e muito menos daqueles que aspiram desesperadamente a serem chantilly, sem perceberem que "a nata" não é mais do que a gordura do leite. Também não gosto da atitude daqueles que passaram anos a dizer que eram "a nata", não gosto daqueles que ainda hoje se afirmam "a nata", e acho incrível como algumas pessoas afirmam que "ovos, farinha, manteiga e açucar há imensos mas natas há poucas e custam muito dinheiro e levam muito tempo a bater" e por isso "são mais importantes". Também não gosto daqueles que considerando-se "a nata" nunca na realidade perceberam que não iam longe sem "os ovos e o açucar (e a farinha e a manteiga!)", e que hoje protestam sem sequer repararem que já há muito tempo que "os ovos, o açucar, a farinha e a manteiga" foram sendo retirados, maltratados, espezinhados enquanto elas, "as natas", eram batidas "em chantilly". Nem daqueles que não percebem que o problema mais grave não é a quantidade de "nata", mas as opções culinárias dos pasteleiros…pasteleiros que, durante anos, se labuzaram e enalteceram mediaticamente a beleza das "natas" (e do "chantilly" delas extraído) com o intuito de desviar a atenção "do açucar, da farinha, dos ovos, da manteiga e das próprias natas" da receita em curso. E que por fim, depois de tanto terem comido, quando lhe faltou o dinheiro para investir em mais "natas" (ou terá sido apenas porque se enjoaram?), decidiram fazer o que já há muito "a manteiga, a farinha, os ovos e o açucar" tinha vindo a perceber: cortaram nas natas e mudaram para uma receita que lhes permitisse continuarem a alimentar-se seguindo os conselhos de pasteleiros gulosos seus amigos. Resultado: uma parte das natas foi batida aceleradamente, seleccionada arbitrariamente, e vendida para uso de cozinheiros em pastelarias de luxo. Outra parte, maior foi incluida em pasteis de nata e exportada em packs de 6 e ainda quentinha para pastelarias estrangeiras. E a grande maioria das natas azedarou e será em breve rotulada de imprópria para consumo, primeiro pelos pasteleiros, depois por novos critérios higiénicos estabelecidos pela ASAE, e finalmente pelo próprio chantilly de luxo e natas exportadas. Trágica história a desta receita.

Moral da história: Como sempre acontece nestas coisas da culinária, "as natas" não se conseguem fazer valer só por si, eternamente encavalitadas em cima "do açucar, dos ovos, da manteiga e da farinha". Muito menos conseguem valer-se por si menosprezando e diferenciando-se ostensivamente de quem as sustenta. Nata é nata, açucar é açucar, ovos são ovos, farinha é farinha, manteiga é manteiga. E tanto as natas como a manteiga vêm do leite. É importante, perceber bem isso. É importante entender bem isso. E perceber ainda, criticamente, que a posição das natas (e do chantilly) no alto do bolo serve para algo mais do que "para estar em cima e ser apreciado": é uma posição cuja altura depende de quem está em baixo; é uma posição que permite ver mais longe; é uma posição que permite perceber os movimentos do cozinheiro na cozinha e ler de soslaio livros com outras receitas, noutras linguas, que estão abertos em cima da mesa; e, por tudo isso, é uma posição que exige às "natas" grande responsabilidade e um contributo sério e solidário na colocação da sua beleza e sabor ao serviço de um ideal de pastelaria comum, ao lado de "açucar, manteiga, ovos e farinha", que ajude todos os ingredientes a salvarem-se do livre do arbitrio dos cozinheiros gulosos, fanáticos ou malucos.

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One Comment to “Sobre natas”

  1. Pecador me confesso. Gosto de natas, em pastel das ditas, ou de outras formas como em chantilly, embora neste caso, pelo menos, o mercado tenha criado umas que parecem sintéticas.

    Sem qualquer apetência para a prática das respeitáveis artes da culinária e da pastelaria, prefiro muito honestamente lambuzar-me com os seus produtos

    Há natas e natas, há chantilly e chantilly e convém separar das plásticas, transgénicas, as reais, as genuínas, as natinhas provenientes das tetas das vacas, daquelas que se vêm no campo com a cabeça junto ao chão e o rabo a enxotar as moscas; tendo em atenção que natas a mais sobrecarregam o fígado, aumentam o colesterol, o perímetro abdominal ou as bundas do mulherio.

    Ora, ainda sobre natas, não gosto mesmo aquelas fora de prazo que procuram o consumo nos pacotes organizados pela Jonet; as natas constituidas por caciques aldrabões sempre muito lestos em manter o fluxo de outras natas que amaciam as suas vidas, bem coladas no bolso interior do casaco

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