O chefe dos presos crónica lenta, amarga e desiludida

Todo o mundo geme, todo o mundo grita.

E é então, quando gritamos e ninguém nos acode que vamos descobrindo que não somos especiais, que há mais como nós, muito mais, aterradoramente mais, que somos apenas mais uns entre iguais, e nem por isso alvo de atenção especial por parte das "instâncias internacionais".

E que nos apercebemos que há mais quem grite. E também a plenos pulmões. Aliás, sempre houve. Gritou (e grita) a Grécia (e ninguém a ouviu). Gritaram (e gritam) as famílias espanholas desalojadas (e ninguém as ouviu). Gritam e continuarão a gritar os emigrantes do outro lado do muro de Melilla e ninguém os ouve ou ouvirá. Gritam os palestinos há dezenas de anos e ninguém os ouve (por mais mortandade que sofram). Gritam os jovens como nós, mortos à catanada num qualquer ponto de África (e também eles tinham sonhos). Gritaram os argentinos e os chilenos durante anos de ditadura e ninguém os ouviu. E, pasme-se, gritámos também nós durante 40 e tal anos de ditadura e ninguém nos ouviu.

Sim, porque também nós sabemos quanto tempo é possível gritar e não ser ouvido. Também nós sabemos bem quanto tempo é possível sofrer enormidades e violações, empobrecimento e retrocesso, mesquinhez e religiosidade absurda, Deus Pátria e Família e o diabo-a-quatro, sem solução à vista, durante anos. E do exterior, nada.

Estamos sós e ninguém nos ouve. E, talvez por isso, por o sabermos, temos medo. Muito medo. E como resposta a esse medo gritamos baixinho para não incomodar, puxamos a manguinha das "instâncias internacionais" e chamamos a sua atenção. Não para os gritos, mas para o nosso gritar baixinho.

Mas no fundo, não somos especiais, não somos imortais, nem esta é uma prisão qualquer. Somos a exacta mesma corja explorada e presa como todos os outros que gritam a nosso lado. Com uma diferença, um ignóbil diferença: gritamos baixinho para agradar ao dono da prisão. Refugiamo-nos na esperança de chegarmos a chefe dos presos e termos vagos privilégios com isso. Umas refeições especiais talvez. Talvez a possibilidade de bater nos outros (fazendo tão bem lembrar o "nós não somos como a grécia" tantas vezes repetido). Tudo, desde que nos distinga dos outros presos.

Como disse…ignóbil. Execrável. Houve outro dia um escritor que toldado pela emotividade e esperança que sempre se sente quando se contacta com os fantásticos exemplos dos doentes de cancro, afirmou que o "povo português era de uma dignidade incrível". Mas não é. Nada mais falso. No seu dia a dia, o "povo português" é de uma indignidade incrível, de uma cobardia incrível e de uma falta de coragem incrível. É esse o povo português no dia a dia. É esse o povo português que conta.

Ninguém com dignidade aspira a ser chefe dos guardas desta prisão. Ninguém com dignidade aceita ser conduzido a isso. Seria um favor que fariam, uma aprendizagem enquanto nação, encerrarem-nos com os outros presos. E deixarem-nos devorar. Mas desconfio…tenho mesmo muito medo que…

nem assim nos revoltassemos.

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