To bridge or not to bridge: round-up

A CGTP lá atravessou a ponte ontem. 300 camionetas, inicialmente rapido depois criando alguma confusão no trânsito. Sempre pela faixa da direita e cumprindo o código de estrada. No final Arménio Carlos, o líder da CGTP, efectuou o habitual discurso, anunciando novas manifestações e contestações. Alguns “apanhados” incluem uma entrevista em que Arménio se congratula de não ter provocado problemas no trânsito. Por certo declarações retiradas do contexto.

Podemos torcer a realidade o que quisermos. Podemos baixar-nos tanto até conseguir transformar todos os copos vazios em copos cheios, e transformar todos os fracassos em vitórias. Todo este baixar, fará por certo bem à coluna e ver os copos cheios sempre animou o espírito da gente (muito mais do que ver os copos vazios). Temos ainda assim, por mais que nos baixemos, alguns instrumentos ao nosso alcance para aferir a realidade. Cheios ou vazios, desde que se descobriram as unidades volumétricas que é possível aferir a quantidade de líquido que está dentro dos copos e que se sabe que o número de mililitros não depende da dimensão dos ditos copos. A principal central sindical recuou no dia da entrega do 3o orçamento da troika. Parecem-me mililitros suficientes para aferir que a sua acção está longe de defender os interesses dos trabalhadores, muito menos os interesses da população. Sobretudo se se tiver em conta os cortes que o dito orçamento trás e a recessão em que afundará o país.

Mas Arménio tem razão, não era de facto altura para atravessar a ponte ou qualquer desobediência civil. Não era nem será nunca. O povo tem de facto medo de confrontos, e parece estar disposto a tudo para não se parecer com a Grécia e não dar argumentos ao governo para o 2o resgate. Os proprios sindicalizados aplaudiram o recuo como responsável. E alertaram os jovens incautos das redes sociais de que os custos a pagar por hipoteticos confrontos na ponte seriam incomensuráveis.

Há, em Portugal uma grave confusão entre legalidade e legitimidade. Não sei porque raio os portugueses prezam mais a primeira do que a segunda. Em todo o lado as pessoas refugiam-se na legalidade, esquecendo por exemplo que a pena de morte já foi legal. Bem como a queima de judeus em fogueiras públicas. Ou a repressão da pide. Esquecendo tudo, e nem sequer avaliando o uso que está a ser feito da “legalidade” por quem nos governa. Nem ponderando na equação o que estão fartos de saber: que só alguns têm acesso à legalidade em sua defesa e não é certamente o caso de 99% da população. Por outro lado, na sua candura legalista, aceitam implicitamente que legalmente o governo feche escolas e hospitais, despeça pessoas, dê cabo da economia do país, e corte nos parcos subsidios de que muita gente depende para sobreviver a estas suas políticas. Mas e quando alguém lhes lembra isso? reagem agressivamente: E se houvesse confrontos? perguntaram-me várias pessoas logo partindo para a pergunta “é-te indiferente que morra alguém?”, “queres que alguém morra?”

Rídiculo. Está para nascer o dia em que caem pessoas que nem tordos da ponte, essa imagem fantasmagórica com que todos parecem justificar a sua inacção e que tão bem serviu os interesses do governo. Mas já nasceu o dia em que vão sendo mortos aqui e ali, sem se dar por isso, nas exactas mesmas ruas que a ela conduzem. Todos fazemos os discursos mais tenebrosos sobre o destino do país, a pobreza e as suas vitimas. Praticamente ninguém vê solução nas políticas governamentais. Não hesitamos em relacionar o aumento dos suicidios com a austeridade. E rejubilamos de indignação quando um banqueiro nos diz que “aguentamos tudo”. Mas violência? violência era a dos sindicatos desafiarem o governo e atravessarem a ponte a pé tentando por uma vez, UMA!, abanar o governo e travar um pouco as suas políticas. Não, isso era violência e o governo teria toda a legitimidade para os travar. E até lhes devia bater e espancá-los para que não corressem o risco de tropeçar e cair. Tudo isto num país que há anos assiste a uma maratona naquela ponte.

Rídiculo! Completamente rídiculo. Credo.

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